Você sai do trabalho e segue direto para o happy hour. Lá, encontra com os amigos e acaba exagerando no rodízio de pizza. Afinal, era impossível perder a oportunidade de experimentar tantos sabores por um preço tão acessível. Mas, logo você percebe que não está mais por conta própria. Pelo contrário, ganhou uma companheira irritante. Sim, aquela incômoda sensação de queimação na região posterior ao esterno (osso da parte anterior do tórax) – que chega a irradiar pelo peito, pescoço e, até mesmo, garganta – apareceu no seu rolê e atende por um nome: azia.

Por vezes, um encontro ocasional marcado com o excesso. Em outras, um quadro para lá de frequente e que merece atenção. Até porque o aumento de pessoas afetadas pelo refluxo é alarmante. Segundo dados da Federação Brasileira de Gastroenterologia (FBG), estima-se que 12-20% da população do país sofre da doença do refluxo gastroesofágico (DRGE), em que um dos sintomas clássicos é justamente a azia.

Todo alimento segue o caminho boca, faringe, esôfago e estômago. No entanto, no caso do refluxo, o ácido gástrico – responsável pela digestão dos alimentos – sobe involuntariamente pelo estômago e atinge o esôfago como se fosse sair pela boca. Isto significa que, quando comemos demais, a válvula que existe em cada ponta do esôfago (o esfíncter superior e o esfíncter inferior) recebe a pressão extra exercida nos músculos do estômago e tem sua abertura provocada – o que permite que o conteúdo intragástrico chegue até a garganta.

COMO DIAGNOSTICAR? – Uma consulta ao médico será essencial para diagnosticar o DRGE. O quadro, normalmente, é confirmado por meio de uma endoscopia digestiva alta, que pode ser seguida – ou não – por uma biópsia da mucosa do esôfago para registrar sinais de inflamação. Mas, pode ficar calmo: cerca de 50% das pessoas com reclamações de azia não apresentam alterações inflamatórias que possam sugerir esofagite.

Um teste de monitorização do pH esofágico durante 24 horas (pHmetria) acaba por se tornar o exame definitivo para o diagnóstico de refluxo. Um aparelho mostrará se ocorreu – ou não – uma queda no pH no momento em que aparecem os sintomas, o que caracterizará a doença mesmo que a endoscopia esteja normal.

MUDANÇAS DE HÁBITOS – Considerada uma doença em franca ascensão, a DRGE vem impactando a qualidade de vida das pessoas ao redor do globo. Inclusive, algumas chegam a ter medo de comer e não dormem bem. A tosse seca crônica, em certos casos, torna-se um problema social que pode afetar até o trabalho. Enquanto que doenças pulmonares de repetição – como pneumonias, bronquites e asma – passam de sintomas de DRGE para verdadeiros transtornos.

Um dos fatores que contribuiu para o crescimento do quadro de refluxo é o ganho de peso da população. Logo, uma das primeiras recomendações é a prática de exercícios físicos para a perda de peso. Aliás, dietas gordurosas precisam ser evitadas, pois retardam o esvaziamento gástrico. Também se aconselha restringir a ingestão de bebidas e alimentos como álcool, café, sucos e frutas cítricas, refrigerantes, vinagre, chocolate, pimentas, molho de tomate, frituras, ketchup e mostarda. Assim como, é preciso tomar cuidado com o uso de aspirina, anti-inflamatórios e medicamentos para dor – eles podem piorar a condição. Se for fumante, abandonar o hábito é essencial.

Quem sofre de refluxo deve se deitar apenas depois de três horas após a última refeição. Isto porque é no momento em que você se inclina ou deita que sentirá mais forte a azia ou queimação – que pode abrandar com antiácidos. Uma possibilidade de aliviar os sintomas é elevar a cabeceira da cama entre 15 a 20 centímetros de altura, o que dificulta o retorno do suco gástrico pelo esôfago. Deitar-se virado para o lado esquerdo também costuma reduzir o refluxo – diferente das demais posições.

TRATAMENTOS – Não negligencie sua saúde, nem se automedique perante quadros repetitivos de azia ou queimação. Ao procurar o médico, ele poderá indicar o tratamento adequado para o seu caso: clínico ou cirúrgico. Em certos diagnósticos, medicamentos como os antagonistas do receptor-H2 (cimetidina, ranitidina e outros) podem ser recomendados para reduzir a produção de ácido no estômago.

Enquanto que, em outras situações, a supressão mais eficaz da produção de ácido pode ser alcançada com inibidores de bomba de prótons (omeprazol, lansoprazol e esomeprazol, entre outros). No entanto, em determinados casos – como de esofagite grave ou hérnia de hiato –, uma cirurgia pode ser indicada para quem não responde bem ao tratamento clínico ou quando é necessário confeccionar uma válvula antirrefluxo.

ATENÇÃO – Fique de olho se os sintomas não estão associados a esforços físicos, nem pioram ao deitar. Se vierem acompanhados por náusea, tontura ou falta de ar, bem como se a dor no peito irradiar para o braço ou mandíbula, procure assistência médica imediatamente. Esses sintomas podem indicar um ataque cardíaco.

Fontes:
Biblioteca Virtual da Saúde | Ministério da Saúde – http://bvsms.saude.gov.br/dicas-em-saude/
Portal Dráuzio Varella – https://drauziovarella.uol.com.br
Federação Brasileira de Gastroenterologia (FBG) – http://www.fbg.org.br
Sociedade Brasileira de Motilidade Digestiva e Neurogastroenterologia (SBMDN) – http://www.sbmdn.org.br
American Gastroenterological Association (AGA) – https://www.gastro.org